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30 setembro 2010

sem título

no privilégio do tempo raro



trâsito lento. muito lento. manifestação no Marquês.
paciência projectada no tempo raro.
espaço (finalmente)
para apreciar as intervenções dos Gémeos e do Sam 3 na Fontes Pereira de Melo.
parar.
privilégio.




28 setembro 2010

GQ l pelas ruas da cidade



Numa homenagem ao Atlântico
Na calçada onde há espaço para mais estrelas, o Kampai (em português ‘à nossa’) anda a tornar Lisboa mais cadente. Numa homenagem às dádivas do Atlântico, o novo restaurante japonês eleva-se ao capricho de servir peixe apanhado nas águas do Açores. O empenho da distância estende-se também à raridade das espécies por terras continentais, através do atum selvagem, o veja, o peixão, a lula gigante, abrótea, ou o lírio. Já apelidada como cantina de eleição dos que todos os dias trabalham na Assembleia da República, a qualidade dos peixes movem lisboetas de todas as colinas. E se a simpatia de quem nos serve me deixou vontade de voltar muitas vezes, a mestria do chefe João Soeiro - com um percurso que passou pelo Assuka ou pelo aclamado Aya - confirma a excelência dos sushi’s da cidade. Nas minhas escolhas partilho os temakis tradicionais longe de queijos cremes, o sashimi de lírio Hammachi, ou o surpreendente e saboroso prato especial Oyakudon (frango com camarão, legumes e ovos sobre um delicioso arroz japonês). A cereja do fim do bolo vem em forma de chá verde (matcha) na opção rara de poder ser acompanhado de aveludado feijão azuki. Na impossibilidade da perfeição o Kampai não se eleva na assertividade da iluminação do espaço, que peca pela luz a mais num ambiente que ganharia bastante umas quantas velas sobre as mesas. E enquanto lanço o desafio de um reóstato para um pormenor fulcral à perfeição numa sala de jantar da minha Lisboa, retenho-me no amarelo viajante dos eléctricos que lá foram acompanhavam a cidade.
Kampai
Calçada da Estrela, 37 Lisboa
Tel. 213 971 214
www.kampai.pt

Pela sombra das árvores
Digno das ruas do eléctrico 28, uma antiga loja de balanças honra a magnificência da lateral esquerda da Sé de Lisboa. Bonito de dia, mas elevadamente cénico à noite quando as luzes das ruas da cidade se espelham no reflexo das paredes douradas, o Cruzes Credo Café acompanha os ritmos no dia na opção de pequenos-almoços, refeições leves, lanches ou petiscos sem hora. Mais do que qualquer crítica gastronómica - pretensão que nunca tive por estas linhas, já que o me move é a energia das cidades - agradeço aos quatro amigos que se lembraram de salvar o espaço abandonado, com a responsabilidade de um contributo valioso na dinâmica que oferecem às ruas da Sé de Lisboa. Para experimentar o já famoso hambúrguer, a ardósia na parede oferece escolhas despretensiosas: pastelaria portuguesa, bolos caseiros à fatia, saladas, tostas ou petiscos. Qualquer que seja o pedido possível apenas no balcão, o privilégio da beleza estende-se nos interiores cénicos dignos de um filme de Wong Kar Way: candeeiros de luz ténue, janelas de guilhotina, e um chão recuperado que inundam de orgulho os passos mais sólidos. E enquanto a noite cai numa longa tarde estival, a fusão da morada onde não há espaço para sacrifícios, estende-se ainda a uma esplanada, onde envolvida pela sombra das árvores soltam cruzes sem pecado.
Cruzes Credo Café
Cruzes da Sé, 29
Alfama, Lisboa

A Paragem Contínua
Com todo o fascínio que os cais das estações têm na minha vida, o Clube Ferroviário é mais uma carta alta de Mikas, o homem a quem esta cidade deveria dar uma medalha pelo que fez pela Bica. Num terraço que abraça o Tejo há bebidas em noites quentes, petiscos servidos pelo Magnólia, com a sabedoria que para fazer bem nesta cidade basta não mexer muito. Depois vêm as pessoas e nesta paragem obrigatória, limito-me a agradecer por provocarem não apenas noites dançantes numa morada que apaixonou o Verão de Lisboa, mas também o estímulo do ‘drink after business’ de que esta cidade tanto precisa.
Clube Ferroviário
Rua de Santa Apolónia nº 59
Lisbon, Portugal, 1100
Tel. 21 815 31 96 (a partir das 17h)

publicado na GQ de Outubro de 2010

Porto, a cidade que incendeia


‘seus olhos – se eu sei pintar o que os meus olhos cegou – não tinham luz de brilhar, era chama de queimar; e o fogo ateou vivaz, eterno, divino, como facho do destino. divino, eterno! – e suave ao mesmo tempo: mas grave e de tão fatal poder, que, um só momento que a vi, queimar toda alma senti… nem ficou mais de meu ser, senão a cinza em que ardi’.




Com as intensas palavras de Almeida Garrett regresso ao Porto feliz pelas futuras descobertas. E quando o escrevo não o faço apenas por ser mais uma das nossas mais bonitas cidades, mas porque sempre que toco o postal do Porto apaixono-me de olhos abertos pela proximidade das margens do rio, ou por um dos finais de tarde mais bonitos do mundo.
Numa das ruas mais interessantes da Baixa Portuense, onde se exibe o café da Brasileira e depois de cento e vinte e dois anos do incêndio no desaparecido Teatro Barquet, o Hotel Teatro que ocupa o mesmo espaço estende a Rua Sá da Bandeira a um acto onde os panos se abrem ao primeiro design hotel da cidade e a um Porto cada vez mais extraordinário. Altivo, o projecto arquitectónico tem um traço contemporâneo sem ferir a estética dos edifícios da Baixa e os interiores intimistas a cargo da sempre surpreendente Nini Andrade Silva, preservam a alma de uma morada que homenageia o mundo do espectáculo. E na importância de que as cidades serão sempre as pessoas, o Hotel Teatro recebe as minhas palmas pela equipa, que mesmo com setenta e quatro quartos, não se desprende da missão do acolhimento familiar e a simpatia que se move vestida de tecidos fluidos. O restaurante ‘Palco’ candidata-se a ter o mesmo movimento que em Lisboa encontro na Brasserie do Hotel Tivoli ou no Flores do Hotel do Bairro Alto. E com a mais-valia de um restaurante que já conquistou o centro da cidade, o hotel ilumina-se em detalhes deliciosos, ao lado do poema de Garrett gravado na porta de entrada: o ‘lobby’ lembra-me antigas bilheteiras de cinema e o imponente espelho de do lavabo da recepção transportam-me a um espelho de camarim. Divididos em Gallery, Tribune, Audience, Suite Junior ou Suite, destaco os trinta e sete metros quadrados do Audience pela dinâmica estética do quarto e as suites onde banheiras com pés sugerem banhos espectaculares. O Hotel tem ainda um ginásio com uma vista agradável para as ruas da cidade e um terraço situado no coração do edifício, que além de ser mais uma homenagem à natureza artística do hotel, elevam a expressividade do teatro. Numa morada onde vale a pena pagar para ver e sentir, o Hotel Teatro não é nada menos do que mais ‘um fósforo para o milagre do fogo’, numa cidade onde me sinto sempre incendiada.
Hotel Teatro
Rua Sá da Bandeira, 84 Porto
Tel. 220 409 620
http://www.hotelteatro.pt/

‘A cidade também nos constrói e nos dá sentido’
Incendiada ainda pela estética e pela poesia é agora urgente descobrir o Porto, uma cidade que me fascina pelo entusiasmo assertivo e ambicioso, na construção de espaços sempre tão singulares. Estou em cima da hora para almoçar com o amigo senhor, que em tempos entrevistava por estas páginas e na correria das saudades chego a tempo à acolhedora Taberna do Bonjardim, na rua do mesmo nome.


Caixas de vinho em madeira a revestir a parede, pratos pendurados, cores, quadros e candeeiros a evocar outras épocas, ou escritos a giz sobre lousa, acompanham a variedade de petiscos caseiros num serviço que demorado se revela compensadoramente atencioso, não estivéssemos nós na terra da simpatia.
Solto-me de seguida pelas ruas da cidade e consigo finalmente entrar na Casa de Ló na Travessa da Cedofeita. Com tantas tentativas passadas de a encontrar aberta, jamais estaria preparada para a desilusão da viagem, ao descobrir um potencial imenso entregue ao desmazelo das vitrinas, à falta de produto ou ao ar sujo da apresentação da loja. Um espaço soberbo e carismático onde se pode comprar o mítico Pão-de-ló da Casa Margaride, distraiem a minha exigência pelas nossas queridas cidades e fazem-me oferecer os meus gratuitos serviços de consultoria, em proveito de gestos tão simples como elevar ao máximo um espaço que tem para ser extraordinário. Saio triste e no mergulho nas minhas notas e destinos procuro ansiosa a esquina da Rua da Conceição com o Largo Mompilher. Encontro o Café Candelabro, que nasceu num antigo alfarrabista e que em homenagem à vida do meu pai dedicada aos livros, me devolve as emoções felizes ao deliciar-me com o chão preservado, os livros espalhados pelo café ou as montras muito bem conseguidas, onde máquinas de escrever glorificam o nome do meu blog.



Cheio de portuenses que relaxam e gozam o ‘wireless’ oferecido entre torradas e compotas, cadeiras vintage, estantes com livros de fotografia, cinema, teatro ou artes plásticas fazem-me beijar de coração cheio a magia do Porto.
Na continuidade da elevação das palavras, elevo-me no testemunho de Helder Pacheco, no Café 3C.E se ‘o Porto, cidade, somos nós, as pessoas, (mais a nossa cultura, que construiu e lhe deu sentido), a cidade somos nós, com a memória que dela mantemos e a asa de futuro que queremos para ela’.


Rendo-me assim a uma cidade profunda e cosmopolita, onde um restaurante bar se revela através de antigos contentores de carga e frases soltas nas paredes. Marco o encontro sempre obrigatório com a Livraria Lello na Rua das Carmelitas e por boa energia apanho aberto a meio da tarde o bar ‘Era uma vez no Porto…’, que no meio de livros e paredes forradas a papel revelam uma prometedora atmosfera alternativa.


Ainda à procura da memória de outros tempos, desloco-me agora para o primeiro andar do número vinte da Rua Galeria de Paris, para descobrir o que a Catarina Portas fez por cá. Linda a loja como seria de esperar (obrigada Catarina pela mestria com que propões o carisma de Portugal ao mundo), saí determinada a escrever nestas linhas, a minha opinião sobre os Armazéns Fernandes Mattos, que antecedem o rés-do-chão e são passagem obrigatória à Vida Portuguesa.



Não sou complacente com a fraca escolha de selecção do artesanato e com toda a ousadia atrevo-me a sugerir que ofereçam de bandeja o vosso piso térreo à loja de cima. Tenho dito. Haja então ainda tempo, para tratar da minha irritação no Café da Galeria de Paris enquanto se toca piano ao vivo. Somos poucos a esta hora do dia e talvez por isso as velharias e brinquedos que se exibem nas vitrinas do café bar (que é já uma cartão-de-visita do Porto) me transportam a uma viagem por momentos sem regresso: esta cidade é um espanto.


Na procura de mais beleza e na direcção do bairro da arte ganho a viagem, quando descubro que a Rota do Chá ocupa agora o edifício todo ou que as roupas do Quarto de Cima trocaram o primeiro andar da Casa Almada pelo bairro da Miguel Bombarda.





Ainda a tempo de acompanhar esta cidade onde a cada bom dia me chamam de ‘menina’ remato com chave de ouro na Ribeira, com um jantar descontraído no Pimm’s. A espontaneidade de uma cidade do mundo recorda-me os meus três anos de vida em Amesterdão quando uma mesa de holandeses pergunta-me pelo Porto oferecendo-lhes a sorte grande.


Abandono o cenário da cidade, num restaurante com um serviço raro nos dias de hoje, onde o ambiente de brancos escandinavos e um bacalhau com broa extraordinário me confirmam a gratidão de voltar muitas vezes a esta cidade. Despeço-me com saudades das românticas gaivotas nos Aliados e na eloquência das palavras de Pacheco memorizo que ‘a cidade é um grande, um vasto objecto das emoções dos sonhos, ternuras e desesperos que fazem a vida. Um lugar onde nascemos ou vivemos, a cidade também nos constrói e nos dá sentido e por isso deveria ser cuidada (…) com amor’.
No caso do Porto, não há margem para dúvidas.

moradas
3C Café Club
Rua Cândido dos Reis, 118 Porto
Tel. 222 018 247
www.clube3c.pt
A Vida Portuguesa
Rua Galeria de Paris 20, 1º Porto
Tel. 22 202 2105
www.avidaportuguesa.blogspot.com
Café Candelabro
Rua da Conceição, 3 Porto
Tel. 96 698 4250
www.cafecandelabro.com
Casa de Ló
Travessa de Cedofeita 20A, Porto
Era uma vez no Porto…
Rua das Carmelitas, 162, 1º Porto
Tel. 222 022 240
Galeria de Paris
Rua Galeria de Paris, 56 Porto
Tel. 934 210 792
Pimm's Café Restaurante
Rua Infante Dom Henrique, 95 R/C Porto
Tel. 222 015 172
www.pimms.com.pt
Quarto de Cima
Rua do Rosário, 154 Porto
Tel. 222 010 149
Rota do Chá
Rua Miguel Bombarda, 457 Porto
Tel. 220 136 726 / 914 394 027
www.rotadocha.pt
Taberna do Bonjardim
Rua do Bonjardim, 450 Porto
Tel. 222 013 560

27 setembro 2010

é o novo bistro do 100 Maneiras



abriu a porta na semana passada, na morada do antigo Bachus e confesso que pelas memórias do meu Chiado antigo ou pela homenagem à cidade que deve ser contínua, estou muito curiosa sobre a transformação. chama-se Bistro 100 Maneiras e na extensão do talento de Ljubomir Stanisic 'comemora a democracia à mesa'.

em breve numa das minhas colunas sobre a cidade.

a certeza mais pura



é sempre sublime pisar o chão do Mosteiro que me deu o nome. mais do que assistir à fragilidade da morte lenta de um pai, que dedicou a vida a juntar os livros da Ordem de Cister (em tempos saqueados desta morada), os dias tornam-se mais claros, no dia em que fico responsável pela alma de mais um ser humano da minha árvore de vida.

e perco as palavras ao caminhar sobre as pedras iluminadas, onde estéticas depuradas homenageiam a certeza mais pura.
a vida é. tem sido. generosa.

25 setembro 2010

no elevado sentido de existência



não me surpreendo. mesmo sentindo-me sempre magnânima entre as cidades é ligada à natureza que limpo 'a morte dos dias'. e enquanto esgravato a terra das Beiras, não apenas com as pontas dos dedos, mas com as mãos abertas - ligada ao universo - sinto a morada onde tudo começa. a humidade escorre-me entre os dedos e o aroma impossível em cidades atlânticas, estende-me a certeza do tão elevado sentido de existência.

hoje, 'tudo me prende à terra onde me dei'.

22 setembro 2010

'se me puderes ouvir'



O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa

ou num amor
talvez o mais belo.

'the carousel'



não sei onde tive a cabeça estes meses todos, mas desde Julho que está online a quarta temporada da série Mad Men, essa obra prima de Matthew Weiner. passada no início dos anos sessenta aconselha-se a quem goste de glamour, Nova Iorque, e escolhas. muitas escolhas.

o mais sexy de sempre



acabei de vir do lançamento do novo e poderoso Martini Gold, na terraza Martini num dos rooftops da Avenida da Liberdade. confesso que nunca fui grande fã da dupla Dolce e Gabana mas o conceito vaporoso que criaram para a nova bebida dourada eleva-me a décadas que sempre pensei terem mais a ver comigo.

nos ingredientes gengibre da Índia, mirra da Etiópia e pimenta da Indonésia. também copos grandes porque segundo a dupla é preciso muita inspiração para conquistar uma diva. ainda a generosidade inconfundível de Belucci (quais cabides andantes ou muitas pétalas para as Nigella's desta vida).

em breve numa das minhas colunas sobre a cidade. para consumir com moderação aqui.

páginas de papel, sim para sempre



já não bastava qualquer vício emocional da geração facebook, há ainda quem ofenda uma das minhas actuais convicções. o facto é importante: sou filha de um alfarrabista e tal como Robert Darnton não, não pretendo ler nenhum livro no Kindle ou no iPad. e sim guardo sapiência suficiente para assinar longe da intenção o 'nunca digas nunca'.
a importância do sublinhado a lápis, para um dia voltar a recordar o livro com as pontas dos dedos, ou a importância do cheiro, essa relíquia tão preciosa em tempos de tanta solidão por trás das teclas.

amigos silenciosos serão sempre amigos silenciosos e no andar atlântico terão sempre espaço. muito espaço.

Lisbon restaurant week


'experimentar todos os dias os melhores restaurantes de Lisboa, porque não?'
de 22 de Setembro a 2 de Outubro e com um menú especial de apenas €20, a explorar tudo aqui.

21 setembro 2010

no elogio da criatividade II



foi há um ano que descobri a Mood em Santos. hoje inaugura ao fim da tarde uma exposição de jovens artistas portugueses ao mesmo tempo que se apagam as velas do primeiro ano a transpirar boas energias pelo consumo da minha cidade. pelas sete vai valer a pena viver o largo mais vivo do Santos Design District.

20 setembro 2010

é o Botequim na Graça



fundado por Natália Correia, Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta em 1968, o Botequim foi durante as décadas dos anos setenta e oitenta, um ponto de encontro intelectual com passagem dos nomes de Fernando Dacosta, David Mourão-Ferreira, António Alçada Baptista, José-Augusto França, Luiz Pacheco, Ary dos Santos ou José Cardoso Pires.

hoje recuperado e com a preservação da patine mais certa, o Botequim no número 79 do Largo da Graça está aberto todos os dias das nove da manhã à meia noite e meia. entre mobiliário antigo, paredes vintage e livros muitos livros, a morada transpira boa música e gente simpática. o serviço é acima da média e pode-se comer um prego no bolo do caco, uma salada de cuscuz com vegetais grelhados ou poncha de maracujá. e apesar da área não ser grande há ainda espaço e tempo para programação cultural aqui.

afinal, vale ou não vale a pena preservar?

19 setembro 2010

nos dias do elogio



sem perder o rasto dos dias em que cresciam pelas ruas do Chiado, retenho-me na capacidade do ser humano não deixar o amor refém dos mal entendidos do Mundo. agora é tempo para agradecer quem faz ainda maiores as palavras do elogio.

'Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso”dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também'.

O Elogio do Amor, Miguel Esteves Cardoso

17 setembro 2010

volver II


a chegada do bom Inverno



na livraria Ler Devagar agarro o momento puro do teu crescimento. e depois destas ou destas palavras, que um dia te dediquei, foi com muita alegria que te vi iluminado numa sala cheia. atrevo-me assim a elevar uma das frases no genial 'uso da literatura'. 'Não sei dizer exactamente porque o fiz. Talvez porque a literatura, coisa extraordinária e impossível de explicar (e justamente por isso alvo de constantes e frustradas tentativas), tinha sido uma jovem ambição que cedo se transformara numa fonte de mal-entendidos. Fosse porque não acreditava em mim próprio, fosse precisamente pela razão contrária – porque, no fundo, me julgava capaz de coisas extraordinárias – tomei a decisão de, após muito tempo a fazer aquilo a que normalmente chamamos 'ganhar a vida', renunciar a essa flagrante perda de tempo e fechar-me em casa a escrever a obra com que, finalmente, me vingaria do mundo'.

inicio num dia de Verão a viagem à emoção das tuas palavras.

16 setembro 2010

da história mais badalada de Lisboa



passados alguns e outros e outros capítulos da história mais badalada de Lisboa celebro com gratidão os trinta dias de vida do novo restaurante do Príncipe Real. sem noção da passagem das horas - e agradeço o que nesta morada tem sido feito pela energia da minha cidade - na companhia de quem não se deixa consumir pela última palavra dos Lusíadas, de Luís de Camões, rendo-me ao bolo de polenta com creme baunilha e gelado de pera.
é caso para dizer que os grandes finais elevam os seres humanos
sempre
a um bem maior.

volver



a poucos dias de distância de Sevilha, entro no Teatro Nacional de São Carlos como se tivesse nascido num outro século. e enquanto me oferecem um leque capaz da mesma brisa dos que me evaporavam em terras andaluzas, para ouvir a voz de Enrique Morente, a qual tem capacidade para resuscitar mortos ou, tal como dizia o Al Berto, capaz de limpar a morte dos dias, identifico 'o' perfume. e de regresso às ruas da cidade dourada lembro-me das imagens que ainda guardo como um tesouro.

um dia
as mãos voltarão a sentir.

15 setembro 2010

o Chiado voa



ontem consegui finalmente beber um chá no número 96 da Rua Nova do Almada, para me elevar na Voa, um projecto cem por cento nacional, e que dignifica mais uma vez as memórias do meu Chiado antigo. Livros, cosméticos, enxoval, mercearia gourmet, flores e uma simplicidade revelada em forme de puro bom gosto escandinavo.

em breve numa das minhas colunas sobre a cidade.

'the world's best hotel rooftops'



a varanda do Bairro Alto Hotel ficou em quarto lugar na lista 'a roof with a view'. numa lista ganha pelo Jumeirah Beach Hotel não posso deixar passar o manifesto: é quase ofensivo. já sabem sobre todas as cidades que visitei, o Dubai é uma das maiores aberrações do nosso planeta. e quem escreve este post ama incondicionalmente esta cidade. tenho dito.

14 setembro 2010

'somewhere'



é da Sophia Coppola, ganhou o Leão de Ouro em Veneza e ainda há direito, mais uma vez, à música dos Strokes . não é preciso dizer mais nada.


13 setembro 2010

Muji no Chiado. 'vai buscar!'



a (minha indispensável) Muji vai abrir em Novembro no Chiado! chegar a Lisboa é a prova de que podemos gerir melhor a sanidade mental, de cada vez que aumentamos o período entre descolagens no aeroporto da Portela.

Lisboa está ou não está a ficar um espanto?

12 setembro 2010

na extensão da criatividade



desde o tempo do liceu que gosto de observar os passos largos do menino de ouro.

10 setembro 2010

mais elevações Nespresso



numa fuga de fim-de-semana onde espero fundir-me com a natureza, abandono a cidade com a mala de viagem pesada de revistas desejadas. e na senda do desejo uma sombra de uma árvore ou um silêncio mais puro para a absorção das páginas soltas. hoje abandono a cidade à pressa, depois da apresentação da nova edição da Nespresso e deixo-vos a sugestão de apanharem a edição número catorze da revista desta marca que numa edição dedicada à cidade das luzes, se apresenta numa imagem extraordinária e conteúdos prometedores.

mais elevações Nespresso, em breve nas minhas páginas sobre a cidade.

'the' portuguese cake in New York II


ainda a colher confettis do Lisbon Fashion's Night Out de ontem, direcciono o foco da luz para o bolo que também atravessa cidades. Depois de Madrid e São Paulo parece que a relíquia de Campo de Ourique confirma a celebridade da frase. na vida não se pode agradar a gregos e a troianos. mas há quem ache que tenha um 'food-gasm' ou lhe chame ' tantric chocolate' e não é preciso dizer mais.

09 setembro 2010

o fashion's night out acontece hoje!


Lisboa eleva-se a outras capitais do Mundo, numa noite que promete muitas viagens pelas ruas da cidade. 'Da Rua Castilho à 5th Avenue, com passagem pela Óscar Freire e pela Avenue Montaigne. Este é o evento que traduz literalmente o Mundo como aldeia global. Numa iniciativa que procura promover a cidade e o seu comércio, a revista Vogue lança o repto em várias capitais de Moda por todo o globo: por uma noite, lojistas e comerciantes abrem as suas portas fora de horas para celebrar o prazer de ir às compras. Os pontos estratégicos no mapa lisboeta, que incluem a Avenida da Liberdade, a Rua Castilho e o Chiado, funcionam como pólos de atracção para profissionais da Moda, celebridades e público em geral, que são convidados a usufruir de uma terapia de compras after hours a preços de happy hour. Entre as 19 e as 24 horas, espaços especializados nas áreas da Beleza, do prêt à porter e dos acessórios mantêm-se abertos para um serão que promete preços competitivos, iniciativas de solidariedade e muita diversão'.

acompanhe Lisboa aqui e todas as cidades envolvidas, como Londres ou Nova Iorque, aqui.

08 setembro 2010

'Paula Rego Anos 70 e Victor Willing, Uma Retrospectiva' ou uma grande história de amor



tenho sempre receio de conhecer os génios da minha vida e confesso que gosto de me pendurar nas árvores da fantasia. no preview das duas exposições da Casa das Histórias (que inauguram amanhã) observo a generosidade da artista, que me prende à simplicidade das palavras.

e se por momentos observo as suas mãos, como quem guarda um tesouro, com o testemunho dos dias distantes da não partilha dos pincéis que os uniam, retenho-me na arte e no amor com 'A' grande, de que tanto fala.
lanço-me então mais uma vez, pela ternura, às palavras do elogio.











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