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16 abril 2010

you’re here



Ontem estive quase seis horas num evento na nossa cidade, mas este edifício tem quase sempre este efeito em mim. A razão das horas voadas, a excelente companhia e a pré-inauguração da exposição 'you’re here' no MUDE l Museu do Design e da Moda.

O espaço mais berlinense da nossa cidade recebeu a Converse que com a sua mais recente campanha publicitária mundial, promoveu a apresentação da colecção SS’ 10 ao mesmo tempo que lançou um desafio a um grupo os artistas portugueses, Rui Ventura, Ana Ventura, Filipe Rebelo e Rodrigo Oliveira, André Pinto, Cláudio Balas, Nuno Rocha e David Infante, que representam o espírito da marca.

A ideia pretende inspirar o movimento criativo através da publicitação de histórias pessoais de novos criativos de todo o mundo, provocando, simultaneamente, os consumidores a actuar com criações divulgadas pelo claim da campanha “You’re On”, “You’re Up” e “You’re it”. E na senda da iniciativa da Converse também a presença de um conjunto de curtas metragens - o mais interessante da exposição - que representam artistas desconhecidos e que a Converse recrutou de todo o mundo para compor as imagens da sua campanha publicitária. O projecto arrancou com vários eventos em Berlim, Los Angeles e Sydney e ontem em Lisboa.










'You’re Here' em Lisboa vai ainda incentivar o público a participar neste processo, durante os dias da exposição, que decorre de 16 a 25 de Abril - 3ª a 5ª e Domingo, das 10h às 20h e 6ª e Sábado, das 10h às 22h - com uma acção de oferta e personalização de T-shirts Converse pelos From the Cave, no dia 23 de Abril, das 16h às 19h no MUDE.

15 abril 2010

lisboa é cool. ponto.


na senda do post anterior, a imagem da le cool desta semana está linda. mais para a direita e seria uma janela verdadeira a esta morada.

14 abril 2010

o Porto é cool. ponto.



'entre sexta e domingo próximos, diversas lojas de comércio tradicional da cidade vão disponibilizar as suas montras à criatividade e intervenção de alguns dos mais promissores e talentosos artistas portuenses. 'Troca-se por Arte' é o nome deste projecto que pretende promover a vivência da cidade através desta interligação e complementaridade entre a arte, a arquitectura e a dinamização comercial'.
mais aqui.

um lugar para viver



a história 'Away we go' de Sam Mendes transportou-me ao passado, no dia em que me lembro de ter chegado a Lisboa - vivia na Grécia - abraçada a um 'start again' e ter atirado sessenta caixas (ou o meu sublime legado) para dentro de um armazém. a pergunta mais válida, apenas esta: 'quando e onde voltaria a encontrar-me com os meus objectos e os meus amigos silenciosos?

lembro-me que bati com a porta, abandonando o armazém com o objectivo determinado de um dia, voltar a marcar o número de telefone da empresa de mudanças. nesses dias distantes lembro-me do pensamento que me movia: aconteça o que acontecer, terá de ser contruído com paixão. nada de prostituições em função de um alcance mais rápido aos objectos. sim, hoje apenas me movo abraçada à liberdade. sem medo, o dinheiro (essa palavra que verbalizo, consciente de que é apenas uma energia que está neste mundo para nos servir), aparece sempre para voltar a erguer o castelo. e confesso-vos que muitas vezes ainda me espanto com os frutos duma árvore que nunca se deixou podar pelo medo.

na senda dos riscos que cumpri durante a vida, muitas vezes me cruzo com histórias e pessoas que vivem sem redes, como eu. e os filmes de Sam Mendes obrigam-me sempre a confrontar capítulos do passado. 'American Beauty' ou 'Revolutionary Road' já tinham marcado encontro com algumas gavetas da memória. em 'Away we go' não me posso esquecer da imagem final do filme (e não revelarei pormenores para não estragar surpresas) o olhar final de duas pessoas que testemunham 'o elogio do amor' de Miguel Esteves Cardoso.

nunca precisei de colar um itinerário dentro de nenhum dos meus casacos, mas sei que muitas vezes apenas tomamos consciência das nossas imagens passadas nas histórias dos outros. o espelho foi muito próximo: a emoção e a incompreensão na expressão de Verona (Maya Rudolph) e a surpresa serena de Burt (John Krasinski), tudo numa imagem que faz esquecer qualquer cartão a fazer de vidro, ou o frio que um dia entrou através de uma janela partida.
mais aqui e aqui.

viajantes que tocam

já não me lembro de quando divulguei neste blog a ideia genial da Move On Entertainment. já experimentada noutras cidades como Estocolmo e Milão, a boa notícia é que desta vez a 'escada piano' vai ser colocada no Porto, na estação de Metro do Bolhão. bravo.

12 abril 2010

still life



já tinha passado quase um ano, mas não resisti ao rapto, no momento da passagem do hall de saída, da festa do amigo mago. confesso. roubei (com permissão), um convite de 2009 da torre do correio empilhado (sempre adorei curvar-me diante de edifícios altos). o convite da exposição 'dias úteis' de Catarina Botelho tinha quatro imagens, uma delas esta.

no mesmo convite as palavras de Filipa Valadares,
'Existe na expressão Still Life uma contradição intrínseca. Still refere-se a tudo o que está parado, sem movimento, ruído ou acção, que está fixo e que permanece, referindo-se no limite à morte. Por outro lado life refere-se ao estado, propriedade ou qualidade do que está vivo, à vitalidade e ao tempo da vida. Apesar destas duas expressões serem aparentemente o oposto uma da outra, elas coexistem desde há séculos, na expressão inglesa Still life, anunciando-a como uma Vida Parada, fixa. Já a expressão Natureza Morta (adoptada por diversas línguas latinas), mata à partida a natureza, e em contraponto, a versão alemã Stilleben, refere-se a uma Natureza Silenciosa. Diz-se de uma imagem que é retirada de um filme ser um still, um momento parado do mesmo. Esta qualidade de parar e fixar é intrínseca à fotografia enquanto processo e à forma como gera nas suas imagens, uma paragem do tempo. É neste limbo entre still e life, entre esta paragem silenciosa e a vida, que podemos incluir as fotografias desta exposição. Não sendo obrigatoriamente naturezas mortas, são imagens fixas no tempo, captadas num momento que já passou, mas ainda relativas à vida que continua.'

a opção do rapto foi simples.

'As casas são também uma presença constante nos trabalhos de Catarina Botelho, é no seu interior que praticamente tudo acontece. Elas acolhem as pessoas e os objectos, e só pontualmente há outros espaços como cafés, hotéis ou cenas de exterior, mas quase sempre como uma extensão da casa. A casa é o lugar de convivência, onde permanecemos, é o espaço vivido diariamente. Apesar das suas imagens continuarem na sua maioria a representar pessoas, surge agora também uma aproximação particular aos objectos. Eles sempre estiveram lá, no plano de fundo, mas agora autonomizam-se ganhando um espaço próprio nalgumas imagens. Há ainda outros objectos como mesas, camas ou sofás, que criam horizontes estáveis de relação com os corpos que com eles convivem, ou aos quais se abandonam.'

abandonei a casa com a memória dos seus objectos, no privilégio da utilidade dos dias e na mão, uma imagem para a parede dos poetas do andar atlântio. a certeza de uma noite em que trouxe agarrada à minha pele a extensão de uma casa. a extensão de um amigo que gosto muito e que cresce assim como uma árvore rodeado de pessoas de 'palavra única', hoje aumentado por momentos onde apenas há espaço para a 'liberdade' e muitos dias claros
'relativos à vida que continua'.

10 abril 2010

'In Liebe zu D'



criado pela Lloyd Associates recebi um presente de anos improvável e surpreendentemente perfeito. dos mesmos que fazem a estrondosa Qompendium, o mago elevou-me com o número quatro da M Publication.
acompanhado também de uma segunda pele da Strenesse (não, com certeza não passarei despercebida pelas ruas da cidade) o seu significado eleva a 'liberdade'. as asas de midas estendem-se ainda a um cartaz que já ocupa um lugar de honra na parede dos poetas do andar atlântico.

curioso o reflexo da viajante da página direita. observe o nascimento.

09 abril 2010

meus livros, o regresso



depois da notícia da sua morte anunciada, a revista Os meus Livros regressa com a mesma estrutura editorial, na direcção de João Morales. Segundo o Bibliotecário de Babel a publicação foi adquirida pela CE Livrarias (uma empresa subsidiária da Coimbra Editora), também responsável, em parceria com a LeYa, pelo novo fôlego da livraria Buchholz, em cuja festa de reabertura, hoje ao fim da tarde (festa muito concorrida, diga-se), foi anunciado o regresso da OML às bancas já em Maio'.

08 abril 2010

a cidade branca



finalmente apanhei o Dans la Ville Blanch do Alain Tanner na Fnac. a fita captada pela fotografia de Acácio de Almeida é filmada em Lisboa e co-produzido com Paulo Branco.

o argumento reflecte a solidão e a inconstância de um homem que se perde nas velhas ruas da zona ribeirinha de Lisboa, onde vive um inconsequente amor com uma 'rapariga de alma itinerante'. o envolvente e sensível drama sentimental, eleva a nossa cidade branca que se assume mais como personagem do que como cenário.

um mecânico naval - Bruno Ganz (o anjo do meu idolatrado Wings of Desire de Wim Wenders) - chega a Lisboa a bordo de uma 'fábrica flutuante' e também é um dos viajantes de Bertolucci quando decide ficar na nossa cidade.
na história um relógio anda em sentido inverso, que nas palavras de Rosa - Teresa Madruga - não é mais do que um relógio correcto num 'mundo ao contrário'. os silêncios e a solidão do homem são brancos, num cenário que mostra uma Lisboa decadente (estamos em plenos anos oitenta) com a salvação dos táxis serem ainda pretos e verdes.

o homem viajante deambula pela cidade, é um desertor e nas suas palavras
e o 'tempo desfaz-se', numa fita que testemunha a história cénica da minha cidade.

o homem luz ll



ontem entrevistei o homem luz para o Chivas Club que é lançado hoje ao fim da tarde no Ritz Four Seasons. mais do que ser um ser humano raro ou o último prémio Saramago, o João escreve romances elevados. porque sou uma fã incondicional e seguidora atenta das suas palavras partilho-vos um excerto (ao qual já me rendi) do seu próximo romance ainda não publicado.

'Não sei dizer exactamente porque o fiz. Talvez porque a literatura, coisa extraordinária e impossível de explicar (e justamente por isso alvo de constantes e frustradas tentativas), tinha sido uma jovem ambição que cedo se transformara numa fonte de mal-entendidos. Fosse porque não acreditava em mim próprio, fosse precisamente pela razão contrária – porque, no fundo, me julgava capaz de coisas extraordinárias – tomei a decisão de, após muito tempo a fazer aquilo a que normalmente chamamos 'ganhar a vida', renunciar a essa flagrante perda de tempo e fechar-me em casa a escrever a obra com que, finalmente, me vingaria do mundo.'

07 abril 2010

miss traveller



alguém me sabe dizer a melhor maneira para ir de Istambul a Pamukkale e também Cappadocia? alugar um carro, comboio ou mesmo uma chocolateira cheia de turcos e turquezas?

06 abril 2010

Cais Chiado



Cresci entre a Rua do Alecrim e a Rua Garrett e qualquer coisa que abra para aqueles lados toca-me de uma maneira especial. E sim sou sensível quando a cidade mexe e agradeço as novas moradas e a energia de todos os empreendedores que fazem acontecer esta cidade.

O Cais no Chiado abriu no edifício do Siza quase a chegar ao Cais do Sodré. Além de refeições do dia (gostei das servidas numas marmitas tradicionais) é também um mini-mercado biológico e uma loja de conveniência. Em termos de ambiente o espaço é muito agradável mas infelizmente (sempre gostei de boa concorrência) não chega aos pés da qualidade do Quinoa, com morada numas portas mais a cima. A prova disso são os folhados tipo 'Panike' lustrosos e pouco apetecíveis ou a exibição de um prato do dia, montado para chinês ver, com massa já seca possivelmente pelas horas passadas. Poderia achar que estou a ficar maluca a reparar nestes detalhes - desculpem, mas sou muito exigente com a minha cidade - mas felizmente estava com uma amiga minha treinada muitos anos no Four Seasons que me confirmou o mau aspecto.

Mas o pior estaria para vir, da primeira vez que lá fui estive cerca de 15 minutos à espera de um abatanado. Tanto esperei que decidi ir bebê-lo a outro lado. Mas o mais estranho de tudo foi ao me levantar e terem-me perguntado se já estava servida e eu ter dito que voltava noutro dia, pois estava à muito tempo à espera responderem-me 'ainda bem que gostou'. Vou lá voltar para dar mais uma oportunidade na qualidade do serviço, quanto aos folhados sintéticos e ao prato para chinês ver, já sabem, não aceito desculpas.
imagem daqui.

Absolut Lisbon



ao subir a Rua do Norte descobri esta delícia.
uma senhora de idade que faz capas para a aclamada Absolut Vodka. jamais substituirão as versões Disco ou Mascarade (as minhas preferidas), mas não deixam de ser uma elevação à criatividade. aceitam-se encomendas sem limites de imaginação e onde descobri esta havia até em versão 'lamé' leopardo. ou seja, uma das marcas mais geniais de sempre a inspirar a terceira idade nas ruas da cidade. no mínimo genial.

'how it is'



pensei nisto o dia todo. não consegui ver (hoje era o último dia) a obra do polaco Miroslaw Balka no Turbine Hall na Tate Modern em Londres (na minha opinião o melhor museu do mundo). para os que se fustigam tanto como eu, explore aqui, aqui e aqui.

05 abril 2010

A cidade na ponta dos dedos l A cidade cénica


clique na imagem ou se é assinante aqui.

Objectos que honram cenários de cinema, um curso que nos convida a viajar pelas histórias da sala escura e ainda um caderno para elevarmos os filmes da nossa vida.

publicado a 3 de Abril na Revista Única do Expresso.

03 abril 2010

Os mistérios de Lisboa l Diário Económico


(...) Para Sancha Trindade, especialista e autora de vários textos sobre 'turismo em Lisboa' não há qualquer dúvida que Lisboa é uma cidade que soube 'preservar toda a alma', tal como a Associação que atribuiu o prémio mencionou. 'Mas mais importante do que isso', refere Sancha Trindade, que nos deixa na página ao lado algumas sugestões 'sobre o que fazer em Lisboa', a capital portuguesa 'é uma cidade que cativa um dos lados mais densos da profundidade dos seres humanos. Neste preciso momento lembro-me das palavras do [poeta] Al Berto quando diz que em Lisboa ‘ainda é possível inventar uma história e vivê-la, ou ficar parado a olhar o rio e fingir que o tempo e a Europa não existem. Numa actualidade que se pretende cada vez mais inteira, Lisboa tem uma beleza misteriosa rara e é a mais cénica de todas as cidades seleccionadas.', conclui a especialista.

À conversa com Sancha Trindade, autora do blog 'lisboanapontadosdedos', fundadora da criarte.pt e editora da newsletter da personaltime.pt, descobrimos quais os spots eleitos por esta autora, formada em História de Arte, que viveu fora uns tempos e que de regresso se agarrou à sua eterna paixão: a arte. Neste caso de ser viajante na sua própria cidade. Aqui fica um breve resumo do que fazer - e sobretudo do que não perder.
Onde levar um turista?
Segundo os diálogos de um dos filmes de Bertolucci, “os turistas pensam em retornar a casa, os viajantes nem sempre voltam”. Sempre preferi os viajantes. Não deixaria de partilhar o Jardim de São Pedro de Alcântara, o 28 (do Chiado às Portas do Sol), a vista do Castelo, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, o MUDE, os jardins da Gulbenkian a Exposição da Joana Vasconcelos no Museu Berardo, a ponte (ida e volta) e um passeio de barco à vela no Tejo.
Quais os lugares a não perder?
O tempo será sempre breve, mas esforço-me sempre para não abandonarem a cidade sem terem tomado o o pequeno-almoço no Quinoa ou no Kaffehaus no Chiado, compras na Luvaria Ulisses, na Vida Portuguesa, na Feira da Ladra, nos Alfarrabistas da cidade e na livraria Ler Devagar do Lx Factory. Ainda a Casa Pereira, com direito a uns dos aromas mais inesquecíveis do Chiado. Ao fim da tarde qualquer Quiosque do Refresco, um pastel de Belém, um Porto no Palácio Belmonte, ou um Hendrick’s na varanda do Bairro Alto. Para sentar à mesa, sem hesitar, o Papa Açorda, a Bica do Sapato (apenas a cafetaria), o Chapitô, ou o jantar na Taberna Ideal, agora também com uma ‘Petiscaria’ também ‘Ideal’ na porta ao lado. Fado no Mesa de Frades e na senda da noite, o Lux.
Hotspots do momento
O restaurante Largo (apenas por ser novidade) no Largo de São Carlos, o brunch do Kaffehaus(recém aumentado), os risottos do Bocca, o pão biológico e suspiros de canela no Quinoa, os colares da Lijda Kolovrat na sua nova loja da Rua Dom Pedro V e as freseas (sempre eternas) do Maurício Fernandes no Em Nome da Rosa.
Lugares de culto da cidade
Neste momento a nova Assírio & Alvim bem escondida no Chiado, o Epicurista pela selecção de produtos do Armando Ribeiro e o Shortcutz (iniciativa do Rui de Brito) no Bicaense todas as terças feiras pela iniciativa e transversalidade.
Qual o factor D da Lisboa
A luz, a história, o Tejo, a poesia, as esquinas escondidas e as boas vibrações dos que fazem esta cidade acontecer.
Uma sugestão para Lisboa ser mais “bela”?
Árvores, muitas árvores e o desejo de podermos ir da Avenida da Liberdade ao Príncipe Real pelo Jardim Botânico.

este artigo foi publicado a 2 de Abril no Diário Económico

02 abril 2010

travellers

na senda da partilha no Diário Económico, a elevação aos viajantes.

31 março 2010

limpar Portugal


chegou à Lisboa para investigar a propagação dos fogos nas florestas e quatro anos passados, com um doutoramento defendido na mochila insiste em permanecer na nossa cidade, como se não houvesse medição de tempo.
o viajante francês foi o meu companheiro na aventura limpar Portugal no passado dia 20. em respeito à natureza do Universo, a nossa escolha para limpar a floresta aconteceu na Serra de Sintra e depois de uma carrinha cheia de lixo apenas uma invulgar perplexidade perante os tesouros encontrados: quem se dá ao trabalho de abandonar famílias inteiras de loiça de casa de banho por estrear no meio da serra?

30 março 2010

m.u.d.e.



ou a extensão das paredes brancas.

29 março 2010

GQ l Pelas ruas da cidade



Na excelência do Sul
Sim, sou humilde suficiente para saber que é um desafio descrever por palavras o Vila Joya. Um hotel de charme encantador, com o único restaurante com duas estrelas Michelin, isso já se sabe. Mas o hotel boutique é muito mais que isso e só quem vive a experiência, percebe o que tento partilhar por estas linhas. Uma segunda casa, uma casa de amigos onde somos acolhidos com imenso carinho e elegância. E seja pela serenidade da Joy, proprietária do hotel, seja pela simpatia do Diego que nos recebe como ninguém, pela eficiência do Paulo ou do Marco que se destacam na sala de jantar, o Vila Joya são pessoas, as pessoas que fazem acontecer um dos mais bem escondidos paraísos atlânticos. O Internacional Gourmet Festival – Trubute to Cláudia (mãe da proprietária que um dia sonhou este hotel) voltou a acontecer no primeiro mês do ano e confirmou toda a dedicação e beleza que a Vila Joya me habituou. A rendição foi sublime e na memória partilho do dia inaugural, o Fígado de ganso com rui barbo e framboesa e o Esparguete de atum com pêra abacate e gengibre. No segundo dia com o tema Kochina & friends, o robalo com alcachofras e trufas de Périgord por Nicolas Isnard, a delícia Nespresso por Peter Schachermayer e a bola de açúcar criola com espuma de chocolate Jivara e gelado de tâmaras por Kochina. Ao terceiro dia subi ao céu, pela exuberância da selecção de Tomates verde, vermelho e amarelo, da autoria de Dani Garcia. Para salvação dos ponteiros da balança o Festival já acabou, mas para o restante ano dourado, o Vila Joya guarda como um tesouro, não apenas o chefe Kochina, ou um hotel com uma equipa notável, mas o mais distinguido manjar dos deuses com uma vista deslumbrante, sempre sobre águas do Sul.
Vila Joya
Praia da Galé, Albufeira
Tel. 289 591 795
www.vilajoya.com
Restaurante Vila Joya 12h – 15h30 e 19h – 24h

A cidade pulsa
'Uma cidade pode ser um coração'. Albano Martins escreveu a frase e eu assino por baixo, quando se fala da cidade do Porto. Na extensão de uma cidade cada vez mais apetecível, consegui finalmente comprovar a fama de um dos mais badalados restaurantes do Porto. Distinguido pela Wallpaper como dos cinco melhores novos restaurantes do Mundo, o restaurante, que é também um cocktail bar e um salão de chá, foi o único representante português do top five de finalistas do concurso 'Best New Restaurant'. A competição passou pelo Tegui de Buenos Aires, o Terzo Piano de Chicago, o DamUm de Seul, e o Kaá de São Paulo que conseguiu o lugar vencedor. E sim, mais uma vez comprovo que o Porto ganha a passos largos à capital no que toca a restauração. Porquê? Pela sofisticação. O projecto de interiores Paulo Lobo marca muitos pontos neste cartão-de-visita da cidade. E se o Porto me surpreende sempre, não tenho dúvida que a qualidade é enaltecida pela simpatia natural de quem lá habita. A juntar ao ambiente e serviço extraordinários, a carta é bem representada, com sugestões de influência portuguesa a passar também pelos risotos ou a carta de sushi. Mas é na hora do chá que atribuo a nota vinte a um dos espaços mais trendy do Porto. A qualidade extraordinária dos scones, da pastelaria diversa e dos salgados miniatura, acompanhados de uma completa lista de chás que vão desde o Japão, Vietman, China, Formosa, China ou Índia confirmaram-me que este é sem qualquer dúvida o melhor chá que já provei em Portugal.
Buhle
Avenida Montevideu, 810 Porto
Tel. 22 010 9929
www.buhle.pt
Todos os dias das 12h30 – 15h30 e das 20h – 00h
Sex e Sáb encerra às 00h30
Chá das cinco €10
Chá das cinco Buhle €15

O esgotado é o mais apetecido
A edição especial é irresistível e difícil de encontrar, mas quem me conhece sabe que raramente me cruzo com a palavra 'impossível'. Na versão Rose Imperial a cor incandescente do Moët & Chandon eleva-se pelo o aroma dos morangos, das framboesas e pelas passas de corintos vermelhos, fundidas pela frescura do espinheiro e leves notas de pimenta. Na extensão da sensualidade da especiaria, ainda duas flutes e um par de dados para estender a imaginação.
Moët & Chandon Rose Imperial
Wine O'Clock
Rua Joshua Benoliel, 2B Lisboa
Tel. 21 383 3237
Rua de Sousa Aroso, 297, Matosinhos
Tel. 22 936 3127
www.wineoclock.com.pt
www.moet.com
Seg a Sáb 10h 20h30
€106,85

PersonalTime Newsletter | Abr 2010



Em plena Primavera os ‘cupcakes’ inundam a cidade de sabores surpreendentes,
cobrindo a capital de magia e criatividade. Também em destaque este
mês, a reflexão intensa sobre o mundo contemporâneo, numa exposição de
Robert Longo, a qual não deverá perder, até 15 de Abril, no Museu Colecção
Berardo. Entre a realidade e o sonho continua também a acontecer, agora à
sexta-feira, a PersonalTime no seu tempo mais puro.

explore a PersonalTime aqui e leia a newsletter aqui.

26 março 2010

nós e as palavras II

na morada antiga o filme 'roubado' chega-me pela partilha de um português a viver em Nova Iorque. Lindsay Armstrong do Huffington Post escreve 'Portugal's New Bike Paths'



'We just stumbled across an awesome bike concept: Portugal has taken the functional and made it beautiful. Instead of the arrows or stick figures you might normally see adorning a bike lane, this one in Lisboa is printed with a poem by famous Portuguese writer Fernando Pessoa. The path is situated along the Tejo river and the poem is an homage to the river in the writer's home town. Can't make it to Portugal anytime soon? Watch this video for a vicarious ride along the poetry-dappled path'.

25 março 2010

Lisboa eleita



Das cidades seleccionadas pela Associação dos Consumidores Europeus, para a votação a 'Melhor Destino Europeu 2010', Lisboa venceu entre Barcelona, Londres, Berlim, Praga, Bilbao, Helsínquia, Lyon e Amesterdão.
Lisboa é 'uma cidade que soube preservar toda a sua alma e oferecer uma porta de entrada ao Turismo, sem esquecer as suas riquezas sociais e culturais'.
mais aqui.

24 março 2010

o naufrágio II


mesmo as pegadas do que fui, e que são os meus livros,
agrada-me mais imagina-las do que revê-las na realidade insofismável
do que neles está escrito. a animação que os aqueceu dissipou-se
e é-me impossível recurera-la inteiramente
como à pessoa que de mim está numa velha fotografia.

olho a fotografia e reconheço-me nos traços.
mas que pessoa está por trás deles?

nesses dias distantes

- Look at my watch.
- Why should I?
- Just for a minute ok?
- Times'up. What now?
- What's today's date?
- The 16H.
- April 16Th 1960, one minute before 3:00. We were here together.
I'll always remember that minute because of you.
From now on we're one-minute friends. It's a fact you can deny it.
It’s already happened.
(mais aqui).

23 março 2010

poesia para vestir



'são frases, versos, palavras de poetas e escritores que ficaram na história das letras e que uma empresa decidiu espalhar por aí, em t-shirts que andam por aí, a espalhar a poesia que vem nos livros que muitos não lêem. É outra maneira de celebrar o dia Mundial da Poesia. Vistam-na e se puderem não deixem de a ler. São da criar-te, estão à venda em cerca 30 locais em todo o país'.

publicado no suplemento Outlook do Diário Económico dia Internacional da Poesia, 20 de Março. mais aqui e aqui.

22 março 2010

strenesse



no regresso à morada onde o voo permanece,

'sou livre posso imaginar tudo'.

20 março 2010

mayis sikintisi



a sala não estava cheia, mas encheu a alma a quem se rendeu às Nuvens de Maio, o último filme a passar no festival Pontes para Istambul que aconteceu no CCB entre o dia 1 e 20 de Março.

na fita 'um cineasta regressa à pequena aldeia onde nasceu, na Anatólia, para filmar a idílica paisagem local, mas verifica que o seu pai está quase a perder as terras familiares que vêm de gerações anteriores'.

a serenidade que Nuri Bilge Ceylan regista neste bocado de céu e que tive o privilégio de absorver na sala escura transportou-me à lembrança de um avô longínquo e ao dia da sua partida. não chovia nesse dia, mas cheirava a pinheiros como nunca antes o sentira naquela morada.
e na ternura de todos os momentos que a minha criança guarda como um tesouro antigo, recordei a magia de pequenas coisas, tão simples e que me faziam voar sempre tão alto.

hoje,
não sei se será com a palavra responsabilidade que terei direito ao desejo
e ao sonho, mas posso imaginar o dia da partida,
assim serena,
como quem pedalou a vida toda e descansa de olhos fechados
na sombra de uma árvore.

19 março 2010

seriously ll



para ser romancista, poeta, músico, pintor,
antes de mais nada

é preciso saltar para cima do telhado da casa em que nascemos.

seriously



tinha sido avisada várias vezes da nova fita dos irmãos Coen. 'o filme não é leve' ou 'não esperes uma resposta no final'.
há dias em que só a leveza das histórias nos eleva, mas jamais achar que a aderência à sala escura tenha como objectivo a distração da parte mais densa de estarmos vivos. ao contrário dessa fuga à transparência ou à verdade das nossas emoções e vivências, escrevo com certeza que a cadeira do cinema onde nos sentamos leva-nos muitas vezes bem mais longe do que alguma terapia ou psicanálise.

em clareza, junto-me ao grupo de quem acha que este filme merece a nomeação de melhor filme. e se todos os dias acordo sem livro de instruções, ou formulas matemáticas para a experiência de mais um dia de vida, recordo com humildade o epílogo do filme que nos é entregue de braços abertos no início da história,

'recebe com simplicidade tudo o que te acontece'.

18 março 2010

páginas para comer



não era ainda adolescente quando me lembro do meu pai a correr Rua do Alecrim a baixo atrás de um ladrão de livros. é que mais profunda do que qualquer crise de fome é a crise da alma e nesse estado de espírito, onde a procura de alimento é mais intensa, os livros são parte da salvação.

pecado ou não,
a verdade é que acho este artigo uma delícia.

17 março 2010

a casa e as histórias



Antonioni, Godard, Truffaut ou Bergman serão alguns dos nomes verbalizados no curso 'Ver cinema com outros olhos'. Com apresentação dia 25 de Março na Casa das Histórias, o curso será conduzido por João Braz, com encontro marcado das 18h às 20h todas as quintas-feiras. Uma viagem pela história do cinema, pelos seus heróis e realizadores, com um objectivo,
ver as fitas por outros olhos.

blow up aqui e aqui.

respiro



quando estás vestida, ninguém imagina os mundos que escondes.
assim, quando é dia, não temos noção dos astros que luzem no profundo céu.
mas a noite é nua, e, nua na noite, palpitam teus mundos
e os mundos da noite. to be continued.

16 março 2010

discurso directo



'dizia o Rilke (e sabia-o como ninguém) que é preciso ter visto bastantes cidades para escrever um único verso. Mais óbvia ainda me parece a necessidade de ter lido muitos livros. E quanto a almas e corpos...nem se fala. Mas acontece-me, não raro, que todas essas experiências se confundam: tenho desejado e amado certas cidades como se fossem mulheres, tenho "lido" certas mulheres como se fossem livros e tenho encontrado em certos livros, o caminho para algumas mulheres, o caminho para algumas cidades. Os melhores poemas resultam mesmo de toda esta confusão.'

synecdoche




ou 'os prisioneiros do tempo perdido'.

15 março 2010

a importância da inocência



A escrever o seu primeiro romance - O Museu da Inocência - desde que recebeu o Prémio Nobel - Istambul, Memórias de uma cidade - Pamuk foi recolhendo objectos. Objectos que se infiltravam na história, outros que ele procurava quando a história ficava parada à espera de algo que a fizesse andar. Às vezes era alguma coisa que estava na montra de uma loja, outras no apartamento de um amigo, ou num mercado de rua.

"Quero encher [o museu] modestamente com as coisas que fazem a cidade, que fazem qualquer cidade", explicou ao "New York Times". "Quero que o meu museu seja o museu da cidade, que inclua tudo, desde mapas das ruas, a fechaduras, a maçanetas de portas, passando por telefones públicos e o som das sirenes de nevoeiro".

nos dias não distantes, em que no paralelo dos romances do autor recolho também a minha identidade mais sublime, a importância da inocência e as imagens de Ara Güler.
mais aqui.

13 março 2010

coming soon



finalmente a resposta a este post.
vai ser no Chiado, no número nove da Rua do Carmo.

12 março 2010

no dia em que o céu me recebeu



perguntam-me então como é que uma uma filha de um alfarrabista fica deliciada com a abertura de uma livraria? estou a falar da Assírio & Alvim e da inauguração da sua livraria definitiva, hoje no Chiado.
e sim é um grande acontecimento e talvez o melhor presente no dia em que volto a agradecer a vida e os dons concedidos. para marcar a abertura todos os livros estarão à venda - hoje e amanhã Sábado - com cinquenta por cento de desconto sobre o preço de catálogo, excepto novidades.

os amigos silênciosos são e serão sempre,
o melhor de todos os presentes.

(fica a dica para caso de dúvidas) :-)

11 março 2010

waggle



as mulheres que mais amei
tinham todas raízes e asas.

10 março 2010

blue fish



olhem sempre em frente, olhem para o Sol, não tenham medo de errar sendo originais, iconoclastas e anti, o mais anti que puderem,

e verdadeiros,

fugindo aos velhos caminhos trilhados. (...) cultivem a inquietação como uma fonte de renovamento.

09 março 2010

eu, Alice



Alexandra Prado Coelho escreveu no Ípsilon que a versão de Tim Burton do País das Maravilhas é negra. Escreveu bem. Não tenho qualquer dúvida, quando recuo na memória e recordo que a Alice no país das Maravilhas não era a minha história preferida. Um bela acordada por um beijo, a antítese de uma maça envenenada ou mesmo a ideia de uns sapatos de cristal, todas as histórias eram mais desejadas do que a menina que um dia se mostrava no outro lado do espelho.

Apreciadora da imaginação concretizada de Tim Burton percebo a sua eleição por uma história que vive tão próximo da nossa realidade. Alice in Wonderland não me surpreendeu e a sensação é justificada pelo barulho criado à volta de um filme que me comprova, mais uma vez, que a satisfação será sempre igual à realidade menos a expectativa. A fita é bonita, é criativa, é inteligente, é Tim Burton. Mas mais genial do que tudo isso é a imaginação de Louis Carroll que escreveu uma história para crianças e adultos. E hoje, depois de um caminho talhado pela palavra experiência, delicio-me com a genialidade de cada personagem, de cada símbolo, que estende o nosso lado mais íntimo ao mundo imaginário.

O encaixe com a realidade é estóico. No final não nos temos de confrontar com a utopia de que a menina viverá feliz para sempre. Ainda a importância da chave, a escolha das portas, a variação da grandeza de Alice faz-me reconhecer a humanidade da personagem. Ao longo da história, a sua confiança no desconhecido e o mais sublime de tudo: a fuga antes da decisão.

Um verdadeiro manicómio ?... talvez. Para mim real. Muito. É que é na inteligência das pequenas e grandes loucuras, que todos os dias me vou tornando cada vez mais sábia, eu diria.

08 março 2010

A cidade na ponta dos dedos l Afinal o que importa são os bolos



clique na imagem ou se é assinante do Expresso aqui.

Dignos das personagens da série ‘O Sexo e a Cidade‘, do filme ‘Maria Antonieta‘ de Sofia Coppola, ou da ‘Pastelaria’ de Mário Cesariny, os ‘cupcakes’ invadiram Lisboa ao som dos auscultadores mais cool do momento.

publicado a 6 de Março na Revista Única do Expresso.

07 março 2010

les chansons d'amour


un dialogue de sourds
parfois, crois moi, on doit se taire,

les mots de trop
il faut se taire.

o naufrágio



"Na semana passada li na imprensa uma frase terrível. A frase era de um pescador sobrevivente do naufrágio da traineira Delfim, ao largo da Costa da Caparica, num destes dias de mau tempo que têm marcado um Inverno especialmente rigoroso. Uma onda gigantesca foi ao encontro da embarcação, esta virou-se, os pescadores ficaram debaixo, um desapareceu logo, outros dois deram as mãos. Um destes, de nome Pedro, tinha 25 anos; o outro, 62.

Ao fim de uma hora e tal, o mais velho morreu. E sobre o que depois se passou, Pedro disse a seguinte frase:
– Senti que ele estava morto mas não lhe larguei a mão, para não ficar sozinho.
Esta frase ficou a matraquear-me o espírito. «Não lhe larguei a mão para não ficar sozinho». Para aquele homem perdido no mar, a companhia de um morto era preferível à solidão.

Lembrei-me então de uma história igualmente terrível contada há anos por Clara Pinto Correia. Escrevia ela que, quando trabalhava numa instituição científica nos Estados Unidos, uma colega que ia fazer uma experiência qualquer com um cadáver lhe disse:
– Ao menos vou tocar em pessoas.
A ideia arrepia. Em certas profissões, as pessoas atingem um tal ponto de solidão que a dissecação de um morto se pode transformar num momento agradável porque permite o contacto com a natureza humana.
Em certo sentido, esta história é uma metáfora. Nas sociedades contemporâneas, o problema da solidão tornou-se uma questão central. A solidão das pessoas sozinhas – e a solidão, mais profunda, das pessoas acompanhadas.
A civilização tem evoluído no sentido da desumanização da sociedade, do individualismo, da diminuição das relações entre os humanos em benefício das relações com as máquinas – e isso está a provocar distúrbios sociais de dimensão incalculável.

O meu pai nunca teve televisão. Ou melhor, só admitiu uma televisão em casa mesmo no fim da vida, porque dizia que o televisor era um aparelho diabólico que impedia as conversas em família ou sabotava as reuniões de amigos. E dava exemplos: recebera o convite para ir jantar a casa de alguém, tinham-se posto todos a olhar para a televisão, a páginas tantas começaram a levantar-se, despediram-se – e o ‘encontro’ acabou assim.
Na primeira vez que veio a Portugal depois de um longo exílio na Europa passámos férias juntos numa casa na serra da Gardunha – uma casa alugada a um guarda-florestal – onde no centro da sala havia uma lareira. Como estava frio, acendíamo-la todas as noites. E ficávamos a conversar, olhando para as chamas, que faziam desenhos sempre diferentes.
Um dia ele disse:
– A lareira é a nossa televisão.
E era. O fogo proporcionava imagens fascinantes, de uma grande variedade. Mas entre a lareira e a televisão existia um abismo: a lareira favorecia a conversa, a presença da lareira estimulava o espírito, enquanto a televisão monopoliza a atenção, mata as conversas, quebra a afectividade, gera a solidão. A televisão estabelece uma relação unívoca entre o espectador e o aparelho. Que seca tudo à sua volta.

O meu pai viveu a era da televisão – à qual resistiu sempre, como disse – mas já não viveu a era dos computadores. Ora, esta potenciou brutalmente a solidão introduzida nas sociedades modernas pela TV.
É que, enquanto a televisão ainda pode ser vista em família, em ambiente familiar, o computador é um objecto eminentemente pessoal. Na televisão as pessoas podem ver juntas um filme, um telejornal, uma reportagem – e podem ir comentando o que vão vendo. Embora a regra geral seja o silêncio, de vez em quando aquilo que passa no ecrã provoca uma observação, um comentário.
Mas com a entrada dos computadores na vida das pessoas, nem isso sobreviveu. O computador é de utilização individual, não se usa em grupo. Nos serões familiares, é hoje vulgar ver-se cada um dos membros da família agarrado ao seu computador, mergulhado na sua particular solidão, relacionando-se com um aparelho, mexendo em teclas de plástico.

O computador afastou ainda mais as pessoas umas das outras – criando o homem-objecto ligado à máquina, que serve para tudo: para trabalhar, para conversar com outras pessoas, para jogar, para encomendar compras no supermercado, para movimentar a conta bancária, para fazer sexo (virtual, claro).
No limite, o ser humano tornar-_-se-á um robô que não anda, não fala com ninguém, não vai à rua – e passa 24 horas agarrado ao computador, com os dedos martelando no teclado e os olhos pregados no ecrã.
A mim, isto assusta-me. Mas é certamente um problema meu. Porque as novas gerações nem sequer percebem o problema. Acham normal passar o dia presos ao computador. E, quando não estão no computador, estão a ver televisão, a jogar playstation ou então ao telemóvel, enviando e recebendo mensagens.

E muitos adultos também já estão infantilizados. Há uns meses fui com uns colegas ao estrangeiro. Quando chegámos ao hotel, já noite alta, convidei-os para uma bebida no bar. Tinha sido uma viagem longa de avião e apetecia-me descontrair com uma boa conversa à frente de um copo de whisky – bebida que aliás só me sabe bem em condições especiais.
Sentámo-nos. Encomendámos três whiskies com água e gelo, o empregado pousou os copos na mesa e eu preparei-me para começar a conversa. Disse duas palavras para o ar mas não obtive resposta. Olhei então melhor para os meus companheiros de viagem. Um estava completamente absorto a fazer um jogo no telemóvel, com os olhos vidrados no pequeno ecrã, o outro, também de telemóvel em punho, carregava febrilmente nas pequenas teclas, possivelmente respondendo a mensagens que tinham chegado durante a viagem.

Desisti da conversa. Sozinho, lembrei-me do meu pai e dos serões à lareira, que era «a nossa televisão». Como estamos já tão longe deste tempo! Como nos tornámos tão tristemente solitários, cada um no seu cantinho com o seu telemóvel ou o seu computador – ‘computador pessoal’, como ele próprio se intitula.
Estamos a construir uma sociedade monstruosa, desumanizada, destituída de alma, onde as relações humanas são cada vez mais ténues e utilitárias.
Adquirimos a última maravilha tecnológica convencidos de que, com isso, vamos tornar-nos mais felizes. Mas vamo-nos tornando apenas mais sós. Deixámos de ter vida colectiva. A sociedade é um somatório de milhões de existências individualizadas. Não percebemos a importância da presença humana.
Ou melhor, só a entendemos nos momentos de desespero – em que a companhia de um cadáver pode ser bastante para não nos sentirmos sozinhos."

o texto - precioso em 2010 - é da autoria de José António Saraiva.

05 março 2010

le bel eté

ignite



Ontem finalmente observei o ignite Portugal.
Em apenas cinco minutos, na companhia de 20 slides (15 segundos cada) os oradores falam, falam, falam para partilhar ideias, abordando temas como inovação, criatividade, empreendedorismo ou tecnologia. Curiosa pela iniciativa nascida em Seattle, fui arrastada pelos cinco minutos do rei. Desta vez não escreveu, nem ia nu mas falou - e muito bem - de braços abertos, tendo sido um dos dois melhores momentos da noite. A prova disso é que quando acabaram os cinco minutos - aparece o slide do fósforo e é suposto a plateia bater palmas para entrar o seguinte orador - ninguém se mexeu.
A iniciativa enaltece a nossa cidade sem dúvida, mas dou nota negativa para o jantar que se seguiu. Estranhamente servido pelo Magnólia (escrevo isto porque o Mag da Miguel Bombarda - sim sim miss Lisboa nas Avenidas Novas - é um local sagrado que antecipa sempre as minhas idas ao King de Domingo ao fim da tarde). Era impróprio e a preço muito injusto.
O próximo vai acontecer novamente no Lx Factory a 17 de Junho.
mais aqui e aqui.

04 março 2010

unplug



há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia branca, lisa. (...) eu sou uma menina do mar. posso respirar dentro da água como os peixes e posso respirar fora da água como os homens. e posso passear pelo mar todo e fazer tudo quanto eu quero e ninguém me faz mal porque eu sou a bailarina da grande raia.
e a grande raia é a dona destes mares.

03 março 2010

os sonhadores



em the dreamers de Bernardo Bertolucci retenho-me na cena do objecto do lume.
não é na pele da divindade corporal de Louis Garrel, conhecido também pelo homem que rouba o sono, mas pelo jovem mais certo, e por isso menos interessante.
a cena, deliciosa, observa que à nossa volta, no mundo, realizamos que há uma certa energia cósmica de tamanhos, de formas. muitas vezes me pergunto qual a gaveta mais certa aos meus objectos incendiados e na incerteza dessa resposta,
the attempt.
é preciso viver, ou como diria um viajante bonito destes que vou atraindo, não ter receio de nos retermos no plástico.

mais cenas onde vale pena a retenção,
aqui.