no dia um,
o São Pedro envia chuva para, nas palavras de Al Berto, limpar a morte dos dias.
o Universo é perfeito.
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01 agosto 2011
26 julho 2011
'l’amour n’est qu’une extrème attention'

'Tinha um livro único, La Côte Sauvage, e uma frase de que nós, adolescentes, gostávamos e com a qual concordávamos: «L’amour n’est qu’une extrème attention». Foi essa extrema atenção que procurámos praticar entre nós e estender à pequena tribo que fomos criando: filhos, netos, amigos. Descobrir, perceber, antecipar o que o outro quer, o que lhe faz falta, o que o vai alegrar. E evitar e prevenir o que o pode magoar ou fazer-lhe mal. A Zezinha tinha essa extrema atenção, até ao pormenor. A nossa amiga Nélida Piñon disse-lhe uma vez: «Você é uma provedora».
Era uma provedora. Organizava os nossos espaços com um amor e uma aplicação inteligentes, pensando-os em função de nós, dos utilizadores. Sempre.'
leia toda a crónica de Jaime Nogueira Pinto aqui.
21 julho 2011
10 julho 2011
na extensão do silêncio 1952 - 2011

crescemos com modelos do que queremos ser quando formos 'grandes' e na construção de um caminho que me ensina todos os dias a ser maior, nunca tive dúvidas da doce assertividade. a nobre assertividade que se mostra sem arrogância.
hoje tenho humildade suficiente para saber que aprendermos quem somos é um processo de aprendizagem onde muitas vezes caímos sem rede. mas mais importante do que cair é ter a capacidade de o mostrar 'sem medo'. Maria José Nogueira Pinto tinha tudo isto.
na frágil entrega dos afectos mais profundos, ou nas incertezas que não vêm com manual de instruções, a convicção sólida e a tentativa de ser 'grande' como esta mulher. uma mulher que deixa um enorme legado:
a altura de um ser humano nunca será física.
07 julho 2011
eu sei quanto tempo duram as fréseas

passaram quase quatro meses desde a partida e hoje rompo a promessa das emoções mais expostas. volto a adormecer com o coração mais humilde. não apenas pela admiração da mulher destemida que cresci a admirar, não apenas pela Mensagem de Pessoa que me chegou também pelas sábias mãos de veludo. não pela falta de medo ou por uma vida entregue à cidade.
hoje ajoelho-me em homenagem de Maria José Nogueira Pinto, uma mulher que nas fraquezas e limites da condição humana mostrou que 'uma vida boa não é uma boa vida'.
que estes momentos espalhem a certeza dos 'dias distantes de uma vida que pode ser interminável'. também pelas famílias que tanto amamos e que com nobreza queremos dar continuidade. ainda o sonho. o sonho e a coragem de lutar por aquilo que sabemos ser a nossa fórmula de felicidade e de não deixarmos refém do ego solitário, todos os sentimentos, os melhores que podemos ter com o mundo.
que 'nada nos falte'. para ler aqui.
05 julho 2011
03 julho 2011
'estamos sós com a noite, para salvar um coração'

'aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa
assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava
assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro
não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha
não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria
(...)
por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos do mundo.
José Tolentino Mendonça in 'Longe não sabia'
23 junho 2011
22 junho 2011
eu conheço o teu canto

não. jamais poderia colocar nesta morada o som que a Leica registou. a morada cénica, a imortalidade do claustro, a presença das gaivotas de veludo, que me libertavam de novo a um caminho que apenas se vive em frente.
o homem. (a verdade da distância mas também) a prensença e a entrega de um homem 'com quem aprendi a ver aquilo que dentro de nós existe e não sabia'. a beleza do sagrado, o toque puro do divino numa noite que nada mais me retém, senão no abraço do previlégio.
as palavras abrem portas
e nelas toco com 'o poder ainda puro das tuas mãos
um caminho que passa e não passa por aqui'.

o tempo é uma palavra de mãos abertas e por isso te peço que o uses para me contares dos lugares por onde viajaste e foste feliz, muito feliz.´
conta-me, eu sei quanto amaste a luz, o vento, o sal nas pontas dos dedos, o muito silêncio que trazia a madrugada. senta-te aqui comigo e dá-me a única coisa que não perderemos e que é a penumbra, o veludo e o sol que habitam essa voz que conheço como um rio e à qual regresso.
eu escuto, conta-me o que emudeceu a tua alma, o que a fez transbordar, o que abandonaste, o que guardaste contigo.
conta-me, abre devagar a porta. eu espero. eu conheço o teu canto.
hoje
da minha janela alcanço todo o azul do Mediterrâneo que me foi dado. é um azul de barcos, gaivotas de asas abertas, cheiro de pinheiros e cigarras no silêncio do anoitecer. é um azul cálido, de ondas ocultas, canções antigas, encontros e desencontros de amor.
se nos calarmos, veremos emudecer o mundo.
e então seremos apenas o essencial.
30 março 2011
25 março 2011
I still beleive in magic
depois de tudo,
o amigo escritor diz que depois da metamorfose nasce uma borboleta.
11 fevereiro 2011
05 fevereiro 2011
03 fevereiro 2011
17 novembro 2010
'o coração dos homens'

respira fundo. 'Porque é fim-de-semana e tens sentido a tristeza gasta de um falhado, sai da cama devagar, abre as janelas e toma um bom pequeno-almoço – omelete de tomate, laranjas espremidas com as mãos, pão alentejano no consolo da torradeira. Depois, quente e preguiçoso, regressa aos lençóis frescos, encontra o teu sítio na almofada e se tiveres a fortuna de poder beijar alguém, pousa primeiro os lábios na curva entre o ombro e o pescoço. Então, ataca, mas que sejas leve, que tenhas tempo para tudo. Mais tarde, já com o coração a reduzir o galope, os músculos em levitação e a boca a pedir água, podes dormir mais. Hoje, não ligues o telemóvel, abdica de narrar a tua vida em emails e redes sociais. Não alimentes a electricidade estática do teu cérebro nem a ansiedade televisiva de querer saber tudo em tão pouco tempo. Tem calma. Caminha longe dos motores, procura um jardim onde ainda sobrevivam buganvílias. Não digas nada. Experimenta viver sem ruído. No final da tarde liga aos teus amigos ou fala com a família. Marca um jantar, pega numa faca e acende o fogão, serve vinho a quem aparecer, toca no corpo daqueles que te fariam falta se ficassem doentes e toca-lhes porque também precisam. Nunca nada é tão dramático como parece. Vai ser fodido, Portugal, mas quando tudo parecer em chamas lembra-te do admirável poder do toque – a cara barbeada do teu pai quando o beijas, a mão que te compõe a franja, um pé procurando outro pé, sobre o lençol, a meio da noite – e talvez percebas que tudo tem que voltar a ser muito mais simples'.
texto de Hugo Gonçalves para o jornal i
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