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26 março 2012

António Tabucchi 1943 - 2012



A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.

Tabucchi, 'A Vida não Está por Ordem Alfabética'

em Abril António Tabucchi abriria as mãos e as palavras de mais um livro da sua autoria pela Dom Quixote. o livro reúne contos que falam da passagem do tempo. tempo que não pára, apenas passa.

a Casa Fernando Pessoa vai homenagear no dia 2 de Abril o autor, 'o italiano que queria ser português' e a quem tanto devemos como amante da obra de Pessoa. aqui fica o início do seu último livro e a minha homenagem.

14 março 2012

para outros a salvação



ando a seguir as histórias da crise do publico e hoje resolvi partilhar uma que me tocou especialmente. fala do luxo dos livros.

retenho-me por momentos na importância da cultura para a sanidade mental de um povo, que tal como a importância da respiração, oxigena o cérebro e alonga os horizontes da mente.

nos cortes que também eu fiz na minha vida pessoal, os livros não se trocam. dêem-me empadão em vez do lombo, mas deixar de ter acesso páginas soltas, deixado no legado do meu Pai como templos sagrados, não.

a importância dos amigos silenciosos nas nossas vidas e o estimulo e partilha de vida pela beleza das palavras escritas... são importantes para 'a saúde de uma sociedade'. o Pai da família Lourenço já não vai à Fnac, por isso deixo a sugestão de passar a frequentar os alfarrabistas da cidade. (a memória do meu Pai habita hoje no meu irmão Bernardo, no 44 da Rua do Alecrim na imagem deste post).

hoje que faz um ano da da sua partida, tenho pensado muito no que ele me deixou enquanto ser humano. nunca me deu a mim e aos meus irmãos nada de mão beijada e hoje agradeço-lhe muito a oportunidade de construir tudo o que tenho, por mim, com o meu trabalho e com o alcançar dos meus sonhos. agradeço-lhe também a educação que me deu e a oportunidade que me foi dada, de quem mais importantes que objetos ou valores, as ferramentas e a conduta de vida perseverante perante todas as adversidades que ultrapassou.

talvez por isso seja chamada de louca quando amo esta cidade sem lamurias e digo gostar desta crise, a crise que afinal aparece sustentada numa crise de valores, numa crise que se mostra - e ainda bem - a única maneira de resgatar um mundo que se perdia em consumo desenfreado. muito duro para alguns infelizmente, para outros a salvação.

11 setembro 2011

a arquitectura dos movimentos



a arquitectura dos movimentos, a fluidez dos corpos, a sensualidade da pele
as formas intensamente simples. a imensidão de Wim Wenders e a sensação de que quando alguém nos toca no pulso, as nuvens ficam imóveis.

esmagante. obrigatório.

06 agosto 2011

'deep blue'



enquanto tocava o sempre distante 'sagrado' deste mundo, o homem das mãos de veludo pegava-me ao colo.


27 julho 2011

sem título


'ela movia-se com a fluidez de um deserto, que atravessava elegantemente e de cabeça erguida. não sabia muito bem como tinha tudo começado, apenas sabia que era preciso estar à altura de tudo o que acontecia. um segredo bem guardado, a violência mais profunda à sua continuidade, parte da sua árvore que abraçava o Universo e outras pequenas pedras que todas juntas um dia, quem sabe, construiriam um castelo. na morada do desafio não havia qualquer protecção, não haviam respostas, apenas dignidade. e foi nesses dias mais inconstantes, que sem pedir nada lhe ofereciam um manto de veludo para cobrir o vestido frágil e fluido. a capa cobriu-a de beleza. era essa a palavra, para quem estava a aprender a viver há tantos dias de coração nas mãos.

no final do dia seremos sempre responsáveis pelo que cativamos e nem a imaturidade ou a inconsequência podem ser desculpa para pormos mais areia num camião de alguém, que em verdade suprema, apenas sabe viver a vida de frente, a enfrentar estoicamente a arena do seu ser humano mais inteiro. e na inconstância de quem foge à sua essência, bastaram apenas duas palavras para espalhar os vidros pelo chão, assim como quem se depara, sem sorrir, perante 'a prova do contrário'.

26 julho 2011

'l’amour n’est qu’une extrème attention'



'Tinha um livro único, La Côte Sauvage, e uma frase de que nós, adolescentes, gostávamos e com a qual concordávamos: «L’amour n’est qu’une extrème attention». Foi essa extrema atenção que procurámos praticar entre nós e estender à pequena tribo que fomos criando: filhos, netos, amigos. Descobrir, perceber, antecipar o que o outro quer, o que lhe faz falta, o que o vai alegrar. E evitar e prevenir o que o pode magoar ou fazer-lhe mal. A Zezinha tinha essa extrema atenção, até ao pormenor. A nossa amiga Nélida Piñon disse-lhe uma vez: «Você é uma provedora».

Era uma provedora. Organizava os nossos espaços com um amor e uma aplicação inteligentes, pensando-os em função de nós, dos utilizadores. Sempre.'

leia toda a crónica de Jaime Nogueira Pinto aqui.

11 julho 2011

próxima estação



os seres humanos não se medem pela maneira como caem, mas pela forma como que se levantam.

10 julho 2011

como uma miúda guarda um tesouro



'o valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis'.

na extensão do silêncio 1952 - 2011



crescemos com modelos do que queremos ser quando formos 'grandes' e na construção de um caminho que me ensina todos os dias a ser maior, nunca tive dúvidas da doce assertividade. a nobre assertividade que se mostra sem arrogância.

hoje tenho humildade suficiente para saber que aprendermos quem somos é um processo de aprendizagem onde muitas vezes caímos sem rede. mas mais importante do que cair é ter a capacidade de o mostrar 'sem medo'. Maria José Nogueira Pinto tinha tudo isto.

na frágil entrega dos afectos mais profundos, ou nas incertezas que não vêm com manual de instruções, a convicção sólida e a tentativa de ser 'grande' como esta mulher. uma mulher que deixa um enorme legado:

a altura de um ser humano nunca será física.

07 julho 2011

eu sei quanto tempo duram as fréseas



passaram quase quatro meses desde a partida e hoje rompo a promessa das emoções mais expostas. volto a adormecer com o coração mais humilde. não apenas pela admiração da mulher destemida que cresci a admirar, não apenas pela Mensagem de Pessoa que me chegou também pelas sábias mãos de veludo. não pela falta de medo ou por uma vida entregue à cidade.

hoje ajoelho-me em homenagem de Maria José Nogueira Pinto, uma mulher que nas fraquezas e limites da condição humana mostrou que 'uma vida boa não é uma boa vida'.

que estes momentos espalhem a certeza dos 'dias distantes de uma vida que pode ser interminável'. também pelas famílias que tanto amamos e que com nobreza queremos dar continuidade. ainda o sonho. o sonho e a coragem de lutar por aquilo que sabemos ser a nossa fórmula de felicidade e de não deixarmos refém do ego solitário, todos os sentimentos, os melhores que podemos ter com o mundo.

que 'nada nos falte'. para ler aqui.

14 abril 2011

eu sei quanto tempo duram as fréseas IV

as fréseas não duram para sempre, mas bastam-me apenas trinta dias para ter a certeza de que o perfume inconfundível de tudo o que devemos recolher neste tempo, deve ser colhido com mãos de veludo. obrigada ao Pedro d’Anunciação pelo artigo.



1931-2011 O Bibliófilo que descobriu primeira impressão em português

Descobriu o Tratadode Confisson, foi poeta, alfarrabista e último presidente da Câmara de Alcobaça antes do 25 de Abril. Morreu dia 14, aos 79 anos, de Parkinson.

Tarcísio Trindade, o bibliófilo que descobriu, em 1965, o mais antigo livro em português e impresso em Portugal, o Tratado de Confisson, revolucionando então a História nacional neste aspecto; poeta de um só livro, Os Meninos e As Quatro Estações, a quem a História da Literatura de António José Saraiva e Óscar Lopes previu futuro risonho; último presidente da Câmara de Alcobaça antes do 25 de Abril; proprietário da Livraria Campos Trindade na R. do Alecrim em Lisboa, transformada em centro de tertúlia literária, morreu 3ªfeira da semana passada, de Parkinson.

Tarcísio já tinha publicado o seu livro de poemas em 1960. Já cultivava amizades como a de Almada Negreiros, ou de António Tavares de Carvalho (que ele empurraria também para a actividade de alfarrabista), Francisco Hipólito Raposo, Francisco Pinto Leite, etc. Amigos dos tempos em que viera para Lisboa estudar Direito.
Mas só em 1965 é que se destacou realmente, com a descoberta do Tratado de Confisson. Era ele então um homem maduro de 34 anos, e estava a preparar-se para o casamento com a lindíssima Mafalda Oriol Pena. Aquela descoberta foi, de resto, um bom impulso de vida, já que o livro seria vendido a Miguel Quina por 400 contos – quantia elevadíssima na época. O preço seria dado como indicativo por um na altura jovem assistente universitário de Letras, José Pina Martins, que divulgou a sua existência em artigo do Diário de Notícias (espevitando a atenção de Quina), e depois baseou na descoberta a sua tese de doutoramento, apresentada em 1974.

Tarcísio pertencia a uma família de antiquários de Alcobaça. Nasceu na ala Sul do Mosteiro de Alcobaça, residência comprada pelo avô, numa altura em que o Estado vendeu bens da Igreja. A opção por Direito deu-lhe conhecimentos de latim, que o ajudavam a esquadrinhar as escritas mais antigas. Deixou o curso a meio, e começou a funcionar como um marchant de antiguidades, e sobretudo de livros antigos, por conta própria e sem estabelecimento. Vasculhava feiras, acorria a zonas do país em que se vendiam patrimónios ainda pouco explorados, e arranjava clientela. Assim descobriu, na Feira do Rastro, em Madrid, o Tratado de Confisson – que terá mostrado ao alfarrabista lisboeta Américo Francisco Marques à procura de cliente.Pina Martins conta a história num texto publicado no site do Instituto Camões. Este Tratado de Confisson, impresso em Chaves em Agosto de 1489, antecipa 6 anos a entrada da tipografia de língua portuguesa no País. Até então era oficialmente dado como livro mais antigo impresso em Portugal o Vita Christi (Lisboa, 1495). Pina Martins conta que, alertado por rumores, foi indagar à livraria de Américo Marques o que se passava. Este pô-lo em contacto com Tarcísio (que voltara a viver em Alcobaça), e com a obra. Atestada a sua autenticidade, saiu o artigo no DN, e Quina comprou-a discretamente, através de uma secretaria que dera morada falsa. Depois, perante o perigo de saída para o estrangeiro, a Polícia pôs-se a investigar, e Quina acabou por deixar a Biblioteca Nacional ficar com o precioso livro.

Em 1969, com o ‘marcelismo’, Trindade acedeu à presidência da Câmara de Alcobaça – o que lhe valeu estar preso alguns meses, depois do 25 de Abril, acusado de ‘fascista’. Foi então que se mudou para Lisboa, estabelecendo-se em frente do antiquário do seu irmão António, na R. do Alecrim.
A vida lisboeta tornou-se-lhe saborosa. Tinha uma boa casa na Lapa, onde ouvia a sua música clássica preferida (Handel e Vivaldi), e passava o dia no Chiado. A livraria Campos Trindade não era apenas um marco de livros antigos (acolheu raridades, como uma primeira edição da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e do Dom Quixote de Cervantes, constando que esta última está hoje na biblioteca particular do Rei de Espanha, para não falar na biblioteca de Cister), mas uma tertúlia de literatos, como António Valdemar, António Pedro Vicente, Artur Anselmo, Luís Bigotte Chorão ou Pais de Brito.

E, finalmente, descobriu-se que nunca fora ‘fascista’. A imprensa regional de Alcobaça celebrou os seus tempos de presidente da Câmara, em que melhorou o ensino no concelho, fez estradas, e teve politicas sociais. Um vereador do PCP lembrou que, quando jovem, ali lançou um centro cultural, e recebeu de Tarcísio todo o apoio.
De novo a cidade o acolheu como provedor da Misericórdia, ou na direcção dos Bombeiros e do Ginásio Clube. Sampaio condecorou-o em 2003. E, em 2009, os amigos dedicaram-lhe um Catálogo, onde, a par das referências extraordinárias da biblioteca, se destaca a sua vida. Mas não voltou a ter ali casa. Tinha-a, sim, na vizinha S. Martinho do Porto, onde já os pais passavam férias, e ele e a mulher davam brado, como belo casal que faziam, nos seus melhores tempos.

22 março 2011

1931 - 2011 l na extensão do silêncio



A imagem não é de Lisboa, mas isso não é importante. De Lisboa e do meu Pai guardo imagens inegáveis sempre que descíamos o Chiado, a caminho do batido de morango e das bolachas de framboesa que imortalizaram a montra da Pastelaria Ferrari. Ainda o Queque e o Tody na pastelaria Parisience, onde hoje reside o bar do Hotel do Bairro Alto ou o colo que ultrapassava a altura dos meus queridos irmãos, apenas para observar a beleza do Tejo da janela da nossa casa.

Esta era uma das músicas que mais elevava o seu silêncio, sempre tão intacto e que agora inunda o legado das salas agora vazias. As páginas dos jornais escrevem que o meu Pai 'não era um homem de sorriso fácil, mas um homem de grandes causas e de coração humilde'. Para além do mestre da extensão do silêncio existiu o Homem. Um Homem amado por um povo, que no dia da sua partida, com os rostos rasgados de emoção se agarravam às minhas mãos com a reverência ao 'grande ser humano', 'um dos mais conhecidos e respeitados livreiros alfarrabistas de Lisboa, um homem de cultura, que deu uma importante contribuição à história do livro em Portugal pelas obras raras que localizou e pelas informações reunidas ao longo dos anos em que marcou a actividade livreira na cidade de Lisboa'.

Privilegio a homenagem feita em vida e a consagração no dia da partida. Em honra à sua vida assisti a uma cidade que se ajoelhou de ternura e agradecimento ao Homem que tinha contribuído para a história da literatura em Portugal, nunca esquecendo a missão cívica e social, mas também o tão esquecido projecto de humanidade que se incendiava com a biblioteca de Cister 'a arder por trás'.

No primeiro dia de Primavera também eu me elevo na sua partida.
Seja na vela que não se apaga, seja nas suas mãos,

as mãos de veludo.