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24 março 2010

o naufrágio II


mesmo as pegadas do que fui, e que são os meus livros,
agrada-me mais imagina-las do que revê-las na realidade insofismável
do que neles está escrito. a animação que os aqueceu dissipou-se
e é-me impossível recurera-la inteiramente
como à pessoa que de mim está numa velha fotografia.

olho a fotografia e reconheço-me nos traços.
mas que pessoa está por trás deles?

18 março 2010

páginas para comer



não era ainda adolescente quando me lembro do meu pai a correr Rua do Alecrim a baixo atrás de um ladrão de livros. é que mais profunda do que qualquer crise de fome é a crise da alma e nesse estado de espírito, onde a procura de alimento é mais intensa, os livros são parte da salvação.

pecado ou não,
a verdade é que acho este artigo uma delícia.

16 março 2010

discurso directo



'dizia o Rilke (e sabia-o como ninguém) que é preciso ter visto bastantes cidades para escrever um único verso. Mais óbvia ainda me parece a necessidade de ter lido muitos livros. E quanto a almas e corpos...nem se fala. Mas acontece-me, não raro, que todas essas experiências se confundam: tenho desejado e amado certas cidades como se fossem mulheres, tenho "lido" certas mulheres como se fossem livros e tenho encontrado em certos livros, o caminho para algumas mulheres, o caminho para algumas cidades. Os melhores poemas resultam mesmo de toda esta confusão.'